Posts com Tag ‘Rolando por Cthulhu’

“Não vou voltar a dormir então é melhor escrever algo sobre o que vi, pois quando o dia chegar, eu espero que as imagens sumam, como quando as névoas dos sonhos se dissipam. Eu estava andando por uma praia, mas era noite e eu não via o mar – havia somente uma escuridão de ambos os lados, na esquerda havia silêncio, na direita, o enorme rumor das ondas, e no meio uma extensa, infinita, faixa de areia adiante.

Eu não olhava para trás, talvez por saber que não restava nada lá, nenhum caminho para voltar. A trilha de areia seguia reta e eu a seguia, até que ela se curvou na direção do mar. A areia estava úmida e pegajosa, porém não havia outro lugar para ir. A maré deve ter recuado e eu fui em frente, mas comecei a afundar na areia, primeira até os tornozelos, depois lutava para continuar, coberto até a cintura. Eu tinha de prosseguir e então vi algum tipo de recife ou ilha e, de lá, vinha o som de vozes ritmadas. Eles cantavam algo, chamando alguém. Eu estava perto, afundado na areia molhada até o pescoço, e pude ouvir um nome repetido com frequência. Clamavam por Dagon, Dagon, Dagon. Então a maré retornou e eu entrei em pânico, com medo de seguir em frente e tentando inutilmente voltar. A água salgada veio rápido e cobriu minha boca, nariz e rosto. Tentei manter o fôlego, então, do negro de piche do mar vi uma criatura peixe de formas humanoide. Ela veio em minha direção e eu perdi o controle e gritei, engolindo água, sal e algas.

Eu acordei assustado, pingando suor e sufocado. Tossi engasgado, desesperado por ar. Caí da cama e me arrastei pelo chão, tossindo. Até que algo saiu de minha garganta. Era uma pequena concha, misturada com lodo arenoso escura. Deus, o que ocorre aqui? Onde eu estive?”

Extrato do diário de Roland Banks.

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– Vai lá, desenha isso de uma vez.

O cultista, de joelhos na pedra, com o giz na mão, ao contrário do que poderia ser esperado, parou de desenhar e encarou seu colega de culto com o típico olhar de alguém que, ao chegar no cinema, ouve que o tempo na fila foi perdido porque a sessão está lotada e que, por sinal, a promoção não é válida para aquele dia em particular.

– Você acha que é fácil desenhar um pentagrama na pedra? Isso não é um quadro de escola. Isso é pedra. Sabe como é difícil manter uma linha reta na pedra?

– É… – O cultista de pé estava numa situação em que tinha duas opções: continuar a discussão e correr o risco de ter de ser ele a desenhar o pentagrama, ou terminar a discussão, ainda achando estar correto em reclamar da demora, com o benefício adicional de não ter nenhum trabalho extra para fazer. – Deve ser difícil – disse, decidindo-se.

– Não é fácil – concordou o outro, satisfeito de obter reconhecimento, o tipo de obtenção que vem de lugar nenhum, nem é dado, e sim criado e enviado por correio para si mesma, para que dê a ilusão aos demais tipos de reconhecimento que ele merece. – Trouxe o bode?

– Galinha.

Aquele que desenhava parou por um tempo avaliando a resposta. Seria um jogo? Algum tipo de teste psicológico para dizer a primeira coisa que viesse à cabeça? O tom foi defensivo, experimental, de quem vê-se obrigado a adivinhar a idade ou peso de uma mulher que lhe interessa, mas que tem beleza o suficiente para achar elogios falsos aborrecidos.

– Galinha?

– Galinha.

O que desenhava esticou o pescoço para olhar atrás do outro e, por certo, o saco de estopa parecia estar ciscando o solo rochoso, ou a própria estopa. Era difícil identificar. O que desenhava suspirou de forma audível e esfregou os olhos.

– Isso, por ventura, é algum maldito ritual de vodu?

– Tente você achar um bode preto na cidade. Ele pode ter mil filhos, mas nenhum deles por aqui.

O cultista que desenhava coçou a cabeça, tentando desviar a raiva para outra atividade.

– Nem ao menos um galo?

– Galinha.

– É preta ao menos?

– É sim. Não toda, mas é.

Outro suspiro. Mais pesado e lento que o outro. A frustração era mais densa que o ar.

– Vai ter que dar, então. Bem, passe-me a vela.

Não houve movimento. O cultista no chão largou o giz, bateu as mãos para limpá-las e, depois de colocá-las com cuidado em cima das coxas, olhou o outro. – A vela – insistiu.

– Então… – O cultista de pé hesitou esperando ser interrompido. Esperava ser interrompido, daria mais tempo para elaborar algo melhor, mas não o foi. Assim, teve de continuar. – … sabe que teve aquele blecaute um tempo atrás? Então, eu estava lendo quando a luz apagou. Eu estava perto do final! O Langdon estava quase descobrindo quem era o Professor. Então eu procurei por uma vela, mas na gaveta não tinha mais. Então eu…

– Pare. – O cultista inspirou, tentando puxar qualquer calma que houvesse no ambiente. Havia, pelo jeito, bem pouca. – Você quer me dizer que usou a Vela de R’lyeh, feita com a gordura do coração de mil pecadores? Aquela que queima até debaixo d’água e até mesmos no abismo mais escuro do universo? É essa a vela que você usou? Para terminar de ler um livro?!

– Não um livro qualquer, é O Có…

O cultista no chão levantou uma mão de modo peremptório.

– Você quer me deixar louco, é isso, né?

Era uma pergunta retórica. Mal sabia ele que ela não deveria ser. Pois acontece que a resposta era “sim”.

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