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O homem de pé sobre a carroça usava um pano, estofado com ervas odoríficas nas dobras, envolta do rosto, deixando somente os olhos e os cabelos à vista. Era preciso tal máscara para lidar com o odor hediondo que havia ali. Nas tábuas já havia os líquidos que vazavam dos cadáveres em decomposição. Os dois cavaleiros mantinham distância, mas mesmo ali o cheiro de morte apodrecida alcançava e, por isso, as montarias estavam inquietas.

“Quantos mortos em batalha?”, perguntou o cavaleiro com a melhor armadura, cujo cavalo usava uma manta azul onde fora cosido o símbolo do peixe, o brasão daquele exército.

“Setenta e quatro, senhor”, respondeu o outro, de montaria menos ajaezada e vestindo roupas mais simples, certamente um vassalo do primeiro.

“Parecem mais”, comentou o nobre, em tom inexpressivo. Venciam, portanto as perdas tinham pouco significado.

“E são”, concordou o vassalo. “São duzentos e três mortos pela praga.”

O nobre torceu o canto da boca, desgostoso em ouvir aquela palavra. A praga; a doença que ceifava tanto nas valetas quanto nos castelos. “O Senhor nos proteja”, proferiu, fazendo o vassalo persignar-se em resposta.

“No acampamento é difícil isolar os doentes”, o vassalo explicou, apologético. “Muitos têm medo de morrer ou de piorarem se forem levados às tendas dos médicos. Então escondem as manchas e fogem para o mato quando as tripas virão água.”

“Mas ainda lutam, mesmo doentes?”

“Sim, meu lorde. Enquanto conseguem andar, lutam”, disse o vassalo.

“Então deixe estar”, o nobre ordenou. Ficou algum tempo olhando os trabalhados dos serviçais e viu que em outra carroça traziam dois barris. Lembrou-se do que ocorria e, por isso, puxou as rédeas do ginete, que respondeu de pronto ao movimento e foi para o lado. “Os outros lados estão tão afetados quanto nós?”

“Os Castelli, sim. Pior até”, informou o vassalo, também afastando-se ainda mais da vala onde os últimos corpos eram jogados. “Já os Pendragon parecem livres da doença, mas quase que se recusam a vir para o combate. Parece que esperam nós e os Castelli nos matemos antes de se envolverem.”

O nobre deu um sorriso maroto, sabendo que faria o mesmo se não tivesse sido levado à luta antes do desejado. Os trabalhadores despejaram o conteúdo dos barris – piche oleoso – por cima dos cadáveres despidos; perto dali, à meia distância da vala, uns outros, apoiados em suas pás, esperavam ao lado das sacas de cal. Uma faísca brilhou e logo a tocha de um dos serviçais chamejava. Ele ia jogá-la na vala quando um dos parceiros dele o impediu e apontou para o nobre, que observava a cena sem grande interessante, tendo seus pensamentos voltados para a batalha que ocorreria na manhã seguinte. Mesmo assim ele viu o gesto e deu um sinal de concordância. A tocha foi lançada e o piche virou fogo.

“Tão fácil”, murmurou o nobre, para ninguém em particular. O vassalo, estando ao lado, supôs, erroneamente, que era para ele. Por isso perguntou:

“O quê, meu lorde?”

“Livrar-se dos corpos”, explicou. “É mais difícil livrar-se da praga.”

O vassalo concordou antes dos dois partirem, a galope, para longe dali.

PLAGUE – O JOGO

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