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Chegar até ali foi mais do que complicado. Foi uma coleção de erros que resultou em atrasos, perdas de material e desistência de parte da equipe. Ali, diante daquele impressionante conjunto de construções que pulsavam uma noção indescritível de proibida antiguidade, a expedição esqueceu-se dos problemas.

A montagem do acampamento ocorreu em um clima quase frenético, tal era o excitamento presente em todos para iniciarem a exploração. Com o perímetro definido e limpo, as barracas foram montadas enquanto os líderes da expedição discutiam sobre a melhor rota para pesquisar. Os mapas não eram de grande utilidade, então optaram por uma estratégia segura: verificar primeiro as entradas mais próximas, deixando o maior templo por último. Nem todos concordaram – eram uma equipe na viagem, porém esta era formada por times vindos de locais diversos, representando interesses próprios, assim havia disputa pelas melhores descobertas.

Todos avançaram pelo portal rachado, afastando a vegetação que tomara o local tanto antes. Restavam marcas fascinantes da civilização que florescera ali, registros quase apagados pelo tempo. Esse foi o foco da atenção da equipe, ao menos até que as primeiras gemas foram encontradas. Houve discussão sobre quem deveria guardar as joias. Adiante, mais tesouros, em particular um pequeno ídolo, feito de ouro e rubi. O bate-boca ficou perto de chegar às vias de fato. Decidiram-se por manter a relíquia onde estava, apanhando-a no retorno – foram vários os resmungos quando desta resolução.

Após um deslizamento de pedras em uma passagem lateral, alguns se entreolharam. Nenhum desistiu. Numa área inundada do corredor haviam cobras venenosas – passar foi um desafio, porém todos mantiveram-se firmes no propósito de encontrar o que mais estava escondido ali. Quando o túnel mostrou-se barrado por teias de aranha, algumas do tamanho de uma mão aberta, os exploradores pararam e começaram a conversar até que notaram que um dos times escapulira do templo logo após as cobras. Mais de um reclamou e fez troça sobre a coragem dos que fugiram. Mais de um, sim, mas não todos, pois também mais de pegou-se desejando ter sido ele a regressar.

A ganância os empurrou adiante até que um novo deslizamento os pegou em cheio. Fugiram de lá como foi possível, deixando para trás tudo o que fora até então coletado. Fora do templo viram o sorriso irônico do time que saíra antes. Aquilo estava longe de terminar bem para todos.

INCAN GOLD – O JOGO

Imagem por l10n0fjudah

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A sirene buzinava da maneira ensurdecedora e as luzes piscavam no padrão de emergência – vermelho e branco, vermelho e branco. O gnomo branco levantou de maneira preguiçosa da cama presa na parede, e deu um longo bocejo. Havia o som de passos apressados, mas ele sabia melhor: sinais de emergência eram o padrão, a regra, não a exceção.

O trinco de ferro rodou e, então, a porta abriu. O gnomo verde gritou uma única palavra: “Fogo!”

Ah, os jovens, pensou o gnomo branco; e verde ainda. “Estamos no mar”, lembrou ao gnomo verde – usavam fardas de cores diversas, pois o capitão tinha dificuldade em separar um do outro só pela cara e o jeito de andar. Gnomos são uma raça particularmente similar, quando querem. Assim, os membros da tripulação eram chamados, e chamavam-se entre si, de acordo com as cores que vestiam – era mais fácil. O gnomo branco era o oficial-sênior, pois era mais difícil deixar o uniforme branco… bem, branco. Essa era a escala hierárquica: quanto mais difícil manter o uniforme da cor certa, mais alto o posto. “Suba e abra uma escotilha. E me deixe dormir.”

“Senhor, dentro do submarino já tem água do mar suficiente para termos um kraken de estimação”, informou o verde.

“Fogo!”, passou gritando pelo corredor o gnomo laranja. Devia ser amarelo, pensou criticamente o gnomo branco. Do outro lado veio, também correndo, o gnomo vermelho, berrando: “Rachadura!”

“E a temperatura está subindo, senhor”, alertou o gnomo verde. “Muito”, adicionou. “Queimando”, finalizou.

O gnomo branco passou a mão pelo rosto, tentando limpar o sono dos olhos. Os sons de alarme continuavam. “Então peguem os baldes, usem a água para apagar o fogo e assem o kraken. Vou estar com fome quando acordar”, comandou. “E porque está me falando tudo isso? Cade o capitão?”

“Pegou o escafandro e fugiu quando o mostrador de pressão quebrou”, avisou o verde.

O gnomo branco ponderou aquela informação. “Fugiu carregado?”

“Senhor?”

“Ele estava carregando alguma coisa com ele, Verde?”

“Só o escafandro.”

O gnomo branco sorriu. Não porque agora era o capitão. Isso é algo passageiro. Mas porque herdara outra coisa. Herdara o cômodo do capitão e, mais precisamente, o armário e o que havia dentro dele. Levantou, pegou o verde pelos ombros enquanto o alarme soava.

“O que faremos, senhor?”

“Beber, Verde. Grogue dos bons. É preciso coragem líquida para enfrentar tantos problemas.”

“Mas e o submarino, senhor? Acho que vi o Azul desmaiado quando corria para cá.”

“Ele não irá para lugar algum. Nem ele, nem o submarino.”

“O submarino está indo para o fundo da última vez que vi!”, recordou o verde.

“Ah”, falou o branco, pouco impressionado. “Teremos que chegar ao fundo da garrafa antes, então! Não se pode desperdiçar bom grogue. Não é… gnômico.”

Neste momento o quarto do gnomo branco entrou em combustão espontânea, enquanto um cano estourava no corredor e os mísseis eram armados nos silos, sem as escotilhas de disparo estarem abertas.

Esse é o SS Red November.

 

RED NOVEMBER – O JOGO

(Imagem por W Eric Martin)

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“Eles parecem estar construindo um palácio, meu senhor”, informou o espião. “Caravanas chegaram lá recentemente e os mercadores fizeram fortuna. E o dinheiro troca de mãos rápido por lá.”

“Sim, como aqui. O nosso arquiteto virá?”

“Talvez”, disse o conselheiro, cuidadoso. “Ele anda ocupado, senhor.”

“Ocupado com cidadelas menores?”, rugiu o senhor. “É aqui que ele deveria estar!” (mais…)