Posts com Tag ‘Alan R. Moon’

Os passos na calçada pavimentada de pedras soavam abafados na neblina densa que subia dos canais. O caminho estava liso e era preciso andar com cuidado para não escorregar e cair, e o caminhante pensou nisso e sorriu, vendo um paralelo claríssimo com sua situação na política da cidade. Assim, ele reduziu o passo – pena que não podia fazer o mesmo em sua outra estrada, pois os leões vinham atrás e estavam todos famintos. Chegou adiante do arcos lavrados de um ponte, marcada com o brasão de um de seus oponentes. Torceu o rosto num sinal de desprezo e escárnio. Então cruzou os braços e ficou ali, esperando.

Andando pela ponte veio seu contato, um empolado comerciante de Mestre, para o qual tinha pouco apreço, mas, neste momento, era alguém que carregava alguma importância, por isso o saudou com um aceno, mantendo o silêncio – havia muitos que desejavam ouvir mais do que o rumorejo da água. Junto de seu contato, ambos seguiram até uma travessa cercada por paredões de tijolos úmidos, um local onde poderia falar mais livremente, pois estavam afastados de janelas e portas.

“E então?”, o nobre veneziano perguntou.

“Amigo”, falou o comerciante, mas não eram nem perto disso, “trago as boas novas. Você poderá aumentar sua influência em San Polo, um lugar de mérito, tanto para quem controla como para quem apenas ocupa-se de uma posição notável na região. Além disso, poderá dispor de um novo Espião na cidade.”

“Isso é bom, mas e o preço?”

“Três limites, meu amigo.”

“Hum”, resmungou o nobre. Era um valor alto, mas que ele poderia pagar. “E o que mais?”

“Pode arranjar um visita do Dogue, que, como sabe, estará mais atento aos seus negócios, rendo-lhe um ganho de destaque na cidade. E conseguirá expandir seu apoio em Cannaregio. Tudo por quatro limites.”

“Um preço alto.”

“Alto, realmente, meu amigo. Mas o Dogue, como sabe, é volátil em seus gostos e pode ajudar aos outros, se o senhor não fizer questão que ele volte seus olhos para sua graça.”

“Não preciso ser lembrado disso por alguém de Mestre”, retrucou o nobre, amargo, nem tanto pelo comentário, que era válido, e mais pela insistência do comerciante em querer transformá-los em colegas, o que apenas o diminuía.

“Perdoe-me”, pediu o comerciante, sem real humildade.

“Qual a última opção?”

“Meramente um pouco de apoio em Castello e Dorsoduro, pelo custo de 1 limite.” O preço era pequeno, mas aqueles regiões estava fora da área de influência do nobre, que teria pouco a ganhar colocando alguns peões em meio a tantos Bispos e Cavalos dos outros – era uma briga que poderia começar, no entanto, mas cujo resultado ele não podia, ainda, prever. O nobre ponderou, a mão no queixo, sentindo o sereno úmido descer sobre eles. Havia sons na noite, mas ele não se importava com eles naquele momento.

“Bem”, soltou, de repente, assustando um pouco o comerciante que mantivera-se em seus próprios pensamentos, “avise ao Dogue que será um prazer recebê-lo e mande um abraço para meus amigos em Cannaregio.”

“Assim será feito, meu amigo.”

Sem despedidas, cada um foi para seu lado enquanto a madrugada descia por sobre Veneza.

SAN MARCO – O JOGO

(mais…)

Anúncios

– Acho bastante difícil, senhor – disse o engenheiro, encarando, do alto do morro, a extensa planície.

O dono da empresa sabia que era uma tarefa complicada. Se fosse fácil, alguém provavelmente teria feito antes. – E, mesmo assim, faremos – retrucou.

O engenheiro abaixou-se sobre um dos joelhos e pegou um punhado de terra, sentindo como era fina e seca. – Difícil – repetiu ele. – Será preciso um trilho longo, sem estações grandes entre aqui e Helena. Quase uma linha reta – mas uma enorme linha reta, no entanto.

– Mas pode ser feito?

Foi necessário um tempo de ponderação antes do engenheiro responder. – Pode, mas será necessário bastante ferro. E a Companhia Azul está pegando tudo que tem disponível para a ferrovia São Francisco-Portland.

Um sorriso espalhou-se pelo rosto do empresário. – Ah, quanto a isto, não se preocupe. Vá em frente, comece a contratar os trabalhadores e fazer as encomendas de material.

O engenheiro não estava tão certo sobre a prudência financeira daquelas ações. – Mas…

O dono da empresa o interrompeu. – Tudo que posso dizer – segredou – é que tenho alguns coringas nas mangas.

TICKET TO RIDE – O JOGO

Imagem por Fawkes

(mais…)

Chegar até ali foi mais do que complicado. Foi uma coleção de erros que resultou em atrasos, perdas de material e desistência de parte da equipe. Ali, diante daquele impressionante conjunto de construções que pulsavam uma noção indescritível de proibida antiguidade, a expedição esqueceu-se dos problemas.

A montagem do acampamento ocorreu em um clima quase frenético, tal era o excitamento presente em todos para iniciarem a exploração. Com o perímetro definido e limpo, as barracas foram montadas enquanto os líderes da expedição discutiam sobre a melhor rota para pesquisar. Os mapas não eram de grande utilidade, então optaram por uma estratégia segura: verificar primeiro as entradas mais próximas, deixando o maior templo por último. Nem todos concordaram – eram uma equipe na viagem, porém esta era formada por times vindos de locais diversos, representando interesses próprios, assim havia disputa pelas melhores descobertas.

Todos avançaram pelo portal rachado, afastando a vegetação que tomara o local tanto antes. Restavam marcas fascinantes da civilização que florescera ali, registros quase apagados pelo tempo. Esse foi o foco da atenção da equipe, ao menos até que as primeiras gemas foram encontradas. Houve discussão sobre quem deveria guardar as joias. Adiante, mais tesouros, em particular um pequeno ídolo, feito de ouro e rubi. O bate-boca ficou perto de chegar às vias de fato. Decidiram-se por manter a relíquia onde estava, apanhando-a no retorno – foram vários os resmungos quando desta resolução.

Após um deslizamento de pedras em uma passagem lateral, alguns se entreolharam. Nenhum desistiu. Numa área inundada do corredor haviam cobras venenosas – passar foi um desafio, porém todos mantiveram-se firmes no propósito de encontrar o que mais estava escondido ali. Quando o túnel mostrou-se barrado por teias de aranha, algumas do tamanho de uma mão aberta, os exploradores pararam e começaram a conversar até que notaram que um dos times escapulira do templo logo após as cobras. Mais de um reclamou e fez troça sobre a coragem dos que fugiram. Mais de um, sim, mas não todos, pois também mais de pegou-se desejando ter sido ele a regressar.

A ganância os empurrou adiante até que um novo deslizamento os pegou em cheio. Fugiram de lá como foi possível, deixando para trás tudo o que fora até então coletado. Fora do templo viram o sorriso irônico do time que saíra antes. Aquilo estava longe de terminar bem para todos.

INCAN GOLD – O JOGO

Imagem por l10n0fjudah

(mais…)