O hospital não tinha as instalações necessárias para atender o fluxo constante de pacientes. Havia odores diversos no ar, mas nenhum aprazível. O diretor do hospital veio até ele com o rosto preocupado. Cumprimentou-o com firmeza e, num sotaque pesado, explicou a situação:

– Como vê, estamos superlotados. A estrutura no momento não é capaz de suportar a chegada de novos pacientes, mas também não temos para onde enviá-los. O Ministro da Saúde disse-me que em poucos dias irá para votação um programa de recrutamento de profissionais diversos – médicos, enfermeiros – além de um fundo de emergência para uso em pesquisa, compra de remédios e equipamentos para mantermos os infectados em quarentena.

– Os infectados não estão em quarentena? – surpreendeu-se.

– Alguns, mas nem perto de todos. Ampliamos a área destinada para o isolamento, mas são muitos.

– Onde eles estão?

– Armamos tendas no pátio e no estacionamento – informou o diretor, em tom de desculpas. – Não há motivo para mantê-los dentro do hospital, já que não há ainda tratamento comprovadamente efetivo contra a doença.

– O clima seco não atrapalha? – questionou porque, nos casos ocorridos em Algiers, o clima seco e quente agravava a ação da doença, devido às dificuldades respiratórias.

O diretor suspirou, rendido.

– Sim, piora o estado. Usamos umidificadores dentro das tendas, porém o resultado é… menos do que ideal. Não é uma situação ideal, entenda. Apenas não temos outra coisa para fazer. Ainda não, ao menos.

O silêncio que seguiu-se foi recheado com uma mistura de pedido e crítica. O pano das tendas estalava no vento seco e quente. Ruídos de vozes baixas, tosse e orações eram ouvidos pelo local. Os dois atravessaram o espaço sem falar, talvez em sinal de respeito, talvez por medo.

Na entrada do estacionamento uma legião de pessoas empurravam-se em busca de atendimento. A maioria, felizmente, ainda não estava infectada, contudo, em sua busca desesperada por uma cura que não lhes era necessária, poderiam contrair o que tanto temiam. Não havia solução, no entanto. Era sempre assim, em todo lugar. A potente buzina de um caminhão serviu para afastar as pessoas e, pelo vão, três veículos grandes, carregados, chegaram até onde o Especialista em Operações e o diretor do hospital estavam. Um sorriso espalhou-se pelo rosto do diretor. O Especialista falou:

– Faremos a central de atendimento logístico de todo o norte da África aqui no Cairo. Fui informado de manhã que os aviões com o resto do equipamento já partiram de Paris e até de noite estarão aqui. Vamos, até lá ainda temos bastante trabalho.

PANDEMIC – O JOGO

Imagem por Rokkr

Geral:
Pandemic é um jogo cooperativo em que os participantes assumem um papel no combate contra várias epidemias que espalham-se pelo planeta, ameaçando a própria existência humana. Para isso, viajam pelo mundo, coletando informações, abrindo estações de pesquisa, enquanto eliminam focos de doenças de forma que elas não se propaguem. É realmente uma luta contra o tempo.

Regras:
São longe de ser complexas. Os personagens dos jogadores têm 4 Pontos de Ação para gastar em cada turno. As ações disponíveis são:

– Mover-se de uma cidade para outra (1 PA);

– Usar uma carta para voar de uma cidade para outra (1 PA);

– Usar a carta da cidade onde o personagem está para voar até qualquer outra cidade do mapa (1 PA);

– Viajar de uma estação de pesquisa para outra estação de pesquisa (1 PA);

– Passar uma carta ou receber uma carta de um dos outros jogadores (1 PA) — só pode ser feita se a carta passada, ou a pega, for correspondente à cidade em que ambos encontram-se;

– Eliminar um cubo de doença em uma cidade (1 PA por cubo).

Essas são as ações básicas. Os personagens têm habilidades especiais:

Médico: por 1 PA o personagem elimina todos os cubos de doença em uma cidade;

Cientista: descobre a cura para uma doença com 4 cartas da cor da doença (o usual é precisar de 5 cartas da cor);

Pesquisador: pode passar cartas para os outros mesmo que não esteja na cidade correspondente à carta. Pode também passar mais de uma carta (cada carta passada custa 1 PA);

Especialista em Operações: pode construir novas estações de pesquisa por 1 PA (para encontrar as curas para as doenças, é necessário, além de ter as cartas, estar em uma estação de pesquisa);

Despachante: pode mover os personagens dos outros (1 PA por espaço movido).

Ao final das ações, o jogador:

– Compra 2 cartas da pilha de compra;

– Se uma carta de Epidemia for revelada durante esta compra, o jogador deve avançar em 1 espaço o marcador da Taxa de Infecção. Também deve pegar a última carta de pilha de cartas de cidades e colocar 3 cubos de doença na respectiva cidade. Por fim, é necessário pegar todas as cartas de cidades já reveladas, embaralhar todas elas (inclusive aquela que foi retirada do fundo da pilha), então colocar todos no topo da pilha;

– Revela o número de cartas indicado na Taxa de Infecção (vai de 2 a 4 cartas) – cada cidade que aparecer nas cartas recebe 1 cubo de doença.

Outras regras importantes:

– Sete cartas é o número máximo de cartas na mão;

– Se uma cidade tiver 3 cubos de doença e um 4º cubo tiver de ser colocado nela, ocorre uma Deflagração (Outbreak). O marcador desse evento sobe 1 (se chegar a 8 o jogo termina em derrota) e toda as cidades ligadas àquela em que ocorreu a Deflagração recebem 1 cubo de doença da respectiva cor.

Os jogadores vencem se:

– Encontrarem a cura para as 4 doenças.

Os jogadores perdem se:

– O marcador de Deflagração chegar a 8;

– A pilha de compras acabar e um jogador tiver de comprar cartas e não tiver mais;

– Se acabar os cubos de uma determinada cor e for necessário colocar um cubo desta cor no tabuleiro.

Em resumo, é isso. E sim, é mais fácil perder.

Imagem por Rokkr

Profundidade:
A curva de aprendizado do jogo não é íngreme, mas ela certamente existe, porém, como muitos jogos cooperativos, o Pandemic é um grande quebra-cabeça, em que é necessário encaixar as peças da melhor forma possível para completá-lo. As peças são as ações. Otimizar ao máximo o uso delas é o que os jogadores devem procurar.

Assim, um pessoa pode usar 3 ações com o Cientista para eliminar 3 cubos de doença de uma cidade, mas é mesmo preciso? Ainda mais quando o Médico faz a mesma tarefa por 1 PA? Às vezes a resposta é sim, às vezes será não. Reconhecer a diferença entre um e outro é o que o jogo exige.

O sorteio das cidades e a compra de cartas é o fator aleatório, mas nem tanto, principalmente no primeiro caso. No começo da partida não há como prever quais cidades serão afetadas, todavia, no decorrer do jogo, sabe-se que as cidades já atingidas pela doença, são aquelas nas quais, quando a carta de Epidemia surgir, haverá novos casos (cubos). Deve-se, portanto, formar uma estratégia que consiga abrigar a necessidade de manter o infecção sobre controle em tais cidades, para que não haja uma deflagração da epidemias para as cidades próximas.

O uso das habilidades dos personagens é algo que sempre tem que estar em destaque, pois são elas que dão uma “vantagem” aos participantes. Algumas são simples: usar o Especialista em Operações para colocar estações de pesquisa em pontos-chave do mapa, de modo a facilitar a viagem entre eles e, também, o acesso a elas para a descoberta das curas. É um pouco mais difícil otimizar o uso do Médico e do Pesquisador, porém nada de perder o sono também.

Ter experiência no jogo ajuda a entender o quebra-cabeça com maior clareza, entretanto o Pandemic tem modos de jogos que desafiam mais, inserindo cartas extra de Epidemia, por exemplo. E, se o jogo base parecer sem brilho, existe a expansão Pandemic: On the Brink.

Tema:
Foi bem aplicado. Há realmente a sensação de combater epidemias que se espalham pelo mundo. Faz sentido que uma cidade previamente afetada volte a ter um surto da doença; assim como a propagação da doença de uma cidade para as outras. O clima é de constante pressão, seja pelos cubos, seja pela pilha de cartas diminuir a cada jogada. Não é preciso ter uma ampulheta ao lado do tabuleiro para saber que o “tempo” está passado e é preciso agir o quanto antes. A adaptação do tema, nesses caso é tão boa que eu sequer consigo pensar em outra maneira de usar um tema similar que não seja dessa exata maneira. Excelente.

Só que nem tudo faz sentido: eu não entendo a explicação temática para só poder trocar informações em cidades específicas, de acordo com a carta a ser passada. É realmente obrigatório mostrar as descobertas in loco? Num período com internet, telefonia global e outras facilidades para a comunicação em tempo real, ser obrigado a ir para Jacarta para obter algum dado novo, se não é algo totalmente sem sentido, também não atinge a marca do senso comum. Mas isso é mais picuinha. Reclamação de quem já perdeu jogos demais porque todo mundo estava longe demais de Pequim para eu passar a última carta vermelha necessária para a cura.

Produção:
Muito boa. As cartas são resistentes, com cores bem escolhidas e funcionais. A arte do jogo, nas cartas, é ótima, sendo mais mesmo tempo útil (mostrando o local no mapa, além de dados sobre as cidades, como população, tamanho, etc) e atrativa. A arte do tabuleiro é mais funcional do que bonita, no entanto. Não é feio, veja bem, só é… entediante.

As peças são bem-feitas, mas eu acho que os cubos pretos e azuis são razoavelmente parecidos quando a iluminação não está lá muito boa. Pode ser algo para auxiliar os daltônicos, porém a cor verde separaria-se melhor. Ou a cor branca. (Doença branca? Hum.)

A caixa é daquelas bem boa, que você sente que resistirá a alguns vários encontrões e quedas. E, veja só, não tem seu interior quase só preenchido por ar. Entre peças, cartas, tabuleiro e manual, o espaço é razoável – e os componentes da expansão (exceto as placas de Petri) cabem todos na caixa do jogo base, algo que eu gosto.

Imagem por basilmichael

Diversão:
Então… Ele é divertido. Na 1ª vez, na 2ª, na 3ª… talvez até a 5ª vez. Depois disso uma dúvida surge: todas as partidas foram meio parecidas, não é? Claro, o local da doença muda. Mas o efeito é o mesmo. Numa partida haverá vários Outbreaks, noutra não. Numa as cartas sairão quase todas nos países azuis, noutro nos vermelhos, ou mais bem dividido. Ou seja, os jogos não são iguais. A questão é que eles parecem iguais.

E depois que essa ideia entranha-se em sua cabeça, é difícil retirá-la. Meio como no filme A Origem. Há fontes de emoção no jogo: a carta de Epidemia, quando virá? Ela já deve estar próxima. Será agora? Quando a Epidemia vem, qual será a cidade que está no fundo da pilha? Eu só acho isso pouco. E similar demais.

Eu sou daquele tipo de jogador que gosta de cartas de Eventos, que ocorrências por vezes inesperadas – realmente inesperadas (a carta de Epidemia eu sei que está na pilha de compra, sei quantas têm, e o que cada uma faz). Ou, na ausência disso, algo que possa dar um refresco para uma mecânica deveras conhecida.

O Forbidden Island faz isso ao permitir que o “tabuleiro” (as peças que forma a ilha onde o jogo ocorre) sejam dispostas de forma aleatória. Além disso, a forma geral da ilha pode alterar – existe a Ilha Crânio, a Ilha Osso, a Ilha Vulcão, etc. Eu gosto isso, torna o jogo interessante e “novo”, sem inserir regra alguma.

Portanto, o Pandemic para mim torna-se datado rapidamente (até porque é mais que possível jogá-lo 2, 3 ou mais vezes em seguida, quando da empolgação inicial – uma partida dificilmente passará de 1 hora). Ou seja, divertir-se por 10 partidas parece bastante ou razoável para várias jogos, mas quando dá para ter essas 10 partidas num espaço de duas semanas, sem realmente comprometer sequer muito tempo, nem tanto.

Vale a compra?
Para variar a resposta é um sonoro: depende. Se você usualmente tem contato com jogadores novos, sem grande experiência nos tabuleiros mais recentes, e menos ainda em jogos cooperativos, ter à mão o Pandemic pode ser prudente, recomendado até. Ele certamente é um jogo sólido, sem nem um sinal suspeito na pele que esteja quebrado, ou resolvido. O Forbidden Island pode parecer “bobinho” demais para certos grupos, então o tema mais sério do Pandemic pode ser a pedida.

Considerando os comentários gerais acerca do Pandemic, é provável que eu me encontre no lado da minoria. Muitos – a maioria – não acha que o jogo torna-se repetitivo, nem mesmo chega a parecer isso. Considerando o meu gosto, eu não recomendo a compra. Porém, eu recomendo que as pessoas o joguem (sim, eu vejo a contradição). É uma boa experiência e provavelmente, além de se divertir, você ficará intrigado pelas possibilidades. Os pontos fortes do Pandemic são maiores que os fracos, certamente. Eu só evito jogá-lo repetidamente em um curto espaço de tempo. Uma vez a cada seis meses está ótimo.

E é isso!

Abs,

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s