Tales of the Arabian Nights – resenha & relato de sessão

Publicado: 16 de dezembro de 2014 por Tiago Perretto em Relato, Resenha
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Olá, pessoas!

Aviso que as impressões abaixo provém de uma única partida, em quatro pessoas. Então, dê as elas o peso que quiser baseado nisso.

O Tales of the Arabian Nights é bem simples: os personagens caminham pelo mapa, fazendo encontros em diversas localidades, e a cada encontro, tem-se uma série de opções para o jogador escolher o que seu personagem fará: por exemplo, o Aladdin encontra um Feiticeira Maligna e, o jogo informa que para lidar com ela usa-se a tabela B, e nela tem – Bajular, Ajudar, Roubar, Evitar, Barganhar, Atacar, Cortejar, Enganar e Contratar. Daí digamos que eu escolho “Cortejar”, porque, como Aladdin, eu tenho as habilidades de Sedução, Contar Histórias, Aparência, e outras que podem ser úteis (no começo do jogo sorteiam-se três habilidades, entre 18 possíveis).

Então, compara-se numa tabela o número da tabela em que encontra-se a Feiticeira Maligna e procura-se nela o ponto que que ela encontra a reação “Cortejar”; aqui indica-se o número para ir no grande livro de encontros (por exemplo, 1609). Então, rola-se o dado do Destino, que pode fazer o encontro ocorrer um número abaixo (1608), no mesmo indicado (1609) ou um número acima (1610) – se o jogador tiver alguma habilidade “dourada” (basicamente é-se um mestre nisso), e tal habilidade estiver citada num dos três encontros (abaixo, no mesmo ou acima), o encontro-se será o que usará tal habilidade. No encontro indica-se o que ocorreu e há dois resultados para ele: um no caso de o personagem não ter a habilidade que teria uso ali e outro caso ele tenha a habilidade exigida para tal encontro – ter a habilidade, claro, causa resultados melhores. Encerrado o encontro, passa-se a vez ao jogador seguinte e assim vai.

Os encontros rendem, normalmente, quatro coisas: pontos de História, pontos de Destino, Tesouros e/ou Condições. Os pontos de História e Destino são o que fazem o jogador vencer (no começo da partida, o jogador precisa gastar 20 pontos entre História e Destino, da maneira que quiser: por exemplo, 10 e 10, ou 13 e 7, o que for) – quando o personagem do jogador alcançar as duas pontuações, ele precisa retornar para Bagdá, e se for o único que conseguir isso na rodada (pois ela ainda ocorre inteiro, dando tempo para que outros, que também completaram os pontos necessários, cheguem até a cidade), o jogador é o vencedor. Tesouros são itens de usos diversos, todos muito bons. E as Condições podem ser boas ou ruins, e algumas delas são Casado, Perseguido, Amaldiçoado, Transformado, Destinado, Respeitado, etc, e cada condição tem regras especiais.

Além de andar para fazer encontros e ganhar coisas, os personagens também podem viajar pelo mundo para cumprir missões das mais diversas, cada qual com suas regras para serem completadas e benefícios dados no caso de sua conclusão. Ao completar uma missão, o personagem recebe outra, então usualmente está-se no melhor interesse do jogador tentar completar essas missões, pois elas rendem pontos e recursos vários, além do que dão algum senso de direção para seguir com o personagem, ao invés de só ficar errando pelo mapa, sem algum objetivo final. Ademais, é possível pegar, durante os encontros, cartas de cidades, e caso o personagens chegue na cidade em questão, após o encontro lá, pode-se usar a carta, rolando 1d6 para ver o que ocorrerá (usualmente ganha-se ou perde-se algo, ou há algum encontro).

Para dar um contexto para a coisa toda, nada melhor do que mostrar como foi a nossa partida,onde os personagens foram o Ali Baba (Fabiano), Aladdin (Lauri), Sinbad (Perusso) e Zumurrud (eu). Vou dividir o relato por personagem:

O Aladdin começou com um desejo gourmet de conhecer os sabores do mundo, em Bagdá ouviu que as melhores iguarias seriam encontradas em Leão, Lhasa e Gaya, e para lá ele começou a ir. No caminho até essas cidades coisas diversas lhe aconteceram: ele perdeu um encontro com uma bela dama, porque seu barbeiro demorou muito além da conta para lhe cortar o cabelo; uma bruxa maligna pegou raiva dele e começou a persegui-lo; numa corte, tornou-se invejoso das muitas joias que via, e ficou amargo pela pobreza que lhe afligia; foi encontrado pela bruxa, mas valeu-se de sua argumentação para convencer a bruxa a ajudá-lo e esta o fez, dando-lhe um fabuloso livro que mostrava como encontrar um local mágico do mundo. Com tal livro, Aladdin chegou até a Cidade dos Diamantes, onde, com a ajuda de Alá, tentou matar as muitas serpentes venenosas que juncavam o lugar, para torná-lo seguro aos outros viajantes – isso não conseguiu, mas sua ação tornou-se querido por Alá, que o abençoou. Depois, em Su-Chou, virou aprendiz de um mago, e durante seus estudos quase foi enganado por um poderoso Efreet a libertá-lo de sua prisão rochosa, contudo a sabedoria do Aladdin impediu que cair no truque. Após completar sua missão atrás dos sabores do mundo, Aladdin seguiu para o sul, até a Cidade das Joias, onde, sob a sombra de tal lugar, onde o orgulho dos construtores trouxe-lhes a ira de Alá, que tornou-a desabitada e cercada por uma imensa terra barrenta e devastada, ele escreveu um lindo, porém de grande pesar, poema. O Sultão daquela terra obteve conhecimento do poema e, tão comovente este era, que o Sultão adotou Aladdin como seu herdeiro. O Sultão leu o poema mil vezes e morreu de pesar, diante daquelas tão tristes palavras, e Aladdin tornou-se o novo Sultão. Este foi o fim desta história.

Sinbad estava entre os pretendentes de uma formosa princesa. O pai desta fez uma disputa entre os desejosos, para descobrir quem era o mais merecedor, e Sinbad saiu pelo mundo para encontrar o maior dos tesouros, para trazer à sua futura esposa. Contudo, o começo foi azarado, pois Sinbad encontrou uma feiticeira maligna, que o transformou em um burrico, tornando-o motivo de escárnio até o feitiço passar. Buscando redenção, Sinbad foi atacado por um bando de ladrões do deserto, contudo, mesmo sozinho, conseguiu resistir a todo o bando e o líder destes, diante de tamanha bravura e coragem, ordenou seu bando a deixar Sinbad vivo, e além disso espalhou a história, tornando Sinbad respeitado em muitos locais. Depois, Sinbad tentou entrar no Palácio de Cristal, porém falhou e foi expulso. Em seguida, fez uma parceria com um ladino armado, mas este era perseguido por um Efreet, que passou a caçar ambos – eventualmente Sinbad desfez a parceria e livrou-se do Efreet. Mais tarde, Sinbad aguentou a desleal persuasão mística de um rio escuro, evitando beber as águas dele, apenas para, em seguida, ser escravizado por uma terrível feiticeira. Mesmo sob o jugo de tal situação, Sinbad salvou toda uma vila de perigosos crocodilos. Porém, tanto tempo passara sem ele encontrar um dos grandes tesouros do mundo, que perdeu a mão da princesa, e assim encerrou esta história dele.

Zumurrud teve um sonho sobre riquezas que a levaram para o leste, até a Índia, onde encontrou uma parente dela, que lhe revelou que o pai dela tinha uma fortuna, mas que esta deveria estar em Badgá. No caminho até ali, Zumurrud evitou águas envenenadas e ganhou um livro mágico de um feiticeiro, na cidade de Herat. Outro mago concorrente deste, sentiu-se desprezado e veio até Zumurrud com intenções destruidoras, porém ela o emocionou com uma história sobre o triste destino de um Efreet, então o mago deixou-a partir incólume. Perto de Bagdá, Zumurrud quase libertou um demônio de um poço, e com um grande susto ela fugiu, com o demônio amaldiçoando-a. Em Bagdá Zumurrud desencavou os tesouros de sua família e tornou-se rica e conhecida. Um dia, gabando-se de conhecer o coração dos homens e mulheres, uma mercadora propôs um desafio: que Zumurrud encontra-se para ela, num mercado de escravos, um marido de mérito para ela. Zumurrud aceitou e partiu atrás desse esposo a ser. Em Balts, Zumurrud encontrou tal pessoa, todavia o destino, como sempre o faz, riu das pretensões das seres humanos, pois eis que foi Zumurrud que apaixonou-se pelo escravo e com ele casou-se, ali mesmo em Balts. Isso trouxe a ela, além do amor, a raiva da mercadora que propusera o desafio e esta valia-se de seu poder financeiro para encontrar Zumurrud e causar-lhe mal. Assim, Zumurrud saiu de Balts e foi para a Espanha, e em Leão, teve um encontro com uma mística poderosa, que mesmo sendo considerada maligna pelo povo local, padeceu-se dela e lhe ajudou, com suas artes, a fazer a mercadora esquecer-se de Zumurrud. Nasce, então, o primeiro filho de Zumurrud, e ela decide seguir para o sul. No Mediterrâneo, testemunha um ataque do gigantesco Dendan, o maior peixe dos mares, mas sua família e ela não são afetados – ao contrário, entre os destroços, Zumurrud encontra um baú lacrado que contém um mapa. Seguindo o mapa, Zumurrud chega até a Cidade de Bronze, onde alguns de seus companheiros testemunham as maravilhas de dentro da cidade, ao escalarem as paredes desta, contudo Zumurrud, sendo mais sábia, evita perder-se nas visões da cidade, e prefere averiguar os arredores onde encontra um artefato maravilhoso: um Arco de Bronze. Após isto, Zumurrud inicia sua volta para casa, para Bagdá, com sua família, e este foi o final desta história.

Ali Baba inicia sua história perseguido por um crime ocorrido em Bagdá e é sua intenção provar ao Sultão que ele nada tem a ver com tal incidente. Para isso, decide fugir e voltar como um senhor respeitável. Só que suas primeiras aventuras trazem-lhe somente pesar: em Alexandria tenta armar uma armadilha para capturar algumas criaturas maldosas, mas estas o enganam e o surram, tornando Ali Baba motivo de piada. Depois, ao jurar que um rio negro era venenoso, vira outra vez motivos de risos e de escárnio. Contudo, sua sorte mudou ao lutar contra um sábio perverso – ao vencê-lo, adquiriu as riquezas deste e ganhou o respeito da população. Ao retornar para Bagdá, em peregrinação até Meca, sua fortuna e porte, chamam a atenção do Sultão, que o perdoa das acusações anteriores e, ainda mais, nomeia-o Vizir de Bagdá. Seu novo cargo o leva a muitos lugares e, um dia, encontra o Sultão dos Djinns, o mais poderoso deles, e apesar de não ser um encontro afortunado, pois o Djinn o manda embora, na cidade deste, Ali Baba encontra uma linda mulher que o conquista e ambos ali casam-se. Mas a mulher não muda a natureza cruel de Ali Baba, que tenta bater num velho cego, pois viu nele alguma ofensa para si, mas acaba segurando sua mão. Em Meca, completa sua peregrinação, e ali ocorre uma tempestade mágica, a qual o apanhou e fez Ali Baba ser transformado em um monstruoso animal peludo. Mesmo nessa forma afetada, Ali Baba prossegue com seus negócios e, quando compra um escravo, é amaldiçoado, e acaba iniciando uma nova peregrinação para expurgar seus muitos pecados. Ao encerrar essa segunda viagem, sabe da morte do Sultão e, ao retornar a Bagdá, vira o novo Sultão. Isso não o deixou preso à cidade, só o obrigou a ter de mover-se com mais lentidão, devido ao séquito que o acompanha. Ainda assim, Ali Baba consegue escapar das pressões do cargo, e efetuar viagens solitárias. Porém, nada de bom vem dessas: numa, vê-se perdido ao seguir a correnteza de um rio escuro, e ao ser apanhado por uma névoa mística, fica louco. Depois, é apanhado por um redemoinho, e as vozes que vinham da água, o deixam profundamente pesaroso. Após isso, encontra um Efreet poderoso, contra o qual tenta lutar e é aleijado por ele. Desse modo, sem saber aonde ia, enlouquecido, abatido, deformado e aleijado, Ali Baba retorna a Bagdá, onde os magos da corte o reconhecem mendigando pelas ruas, e o curam de suas aflições diversas. Ali Baba é si mesmo, de novo, e decidi acalmar-se um pouco no cargo de Sultão, aproveitando sua esposa e filho. Esta história encerra aqui.

Na partida, o Ali Baba venceu, que ficou ali pelo Oriente Médio, matando tempo em volta de Bagdá, enquanto o Aladdin e a Zumurrud passeavam pelo mundo. Mesmo assim, quando o Ali Baba alcançou os pontos necessários em História e Destino (com uma tremenda ajuda do Sinbad), e chegou em Bagdá, o Aladdin, também com os pontos completos, ficou a apenas um par de locais de distância da cidade. Com a Zumurrud, igualmente com os pontos alcançados, fiquei um pouco mais distante, mas na rodada seguinte (se ela existisse), alcançaria Bagdá junto do Aladdin. Ou seja, foi uma disputa apertada! E note que a vida do Ali Baba não foi fácil, ou seja, não vence quem teve mais sorte, quem ficou com mais tesouros ou saiu-se melhor na maioria das situações. O que é bom. Já, ao contrário, não vence necessariamente quem teve a melhor história, com as maiores barbaridades e encontros notáveis. O que pode ser ruim. Pode? É, porque o que realmente importa é a história de cada um, não o resultado final.

O Tales of the Arabian Nights mostrou-se um jogo divertido, ocasionando várias situações memoráveis durante a partida. Porém, é preciso alertar que o Tales of the Arabian Nights contam com um grande downtime entre os turnos do jogador – na vez dos outros não há algo para ser feito pelos outros. No caso, isso não me afetou como aos outros, porque eu era o “leitor designado” quando a vez era dos outros, e na minha, eu estava jogando, claro. Portanto, talvez o ideal seja jogar em 3 pessoas, para reduzir o impacto disso. Jogar em 5 ou 6 deve ser um pesadelo de lentidão!

É importante avisar que este não é um jogo de competição. Se você foca-se em estratégia e em controle, o Tales of the Arabian Nights talvez não seja para você. Os resultados dos encontros são imprevisíveis, mesmo tentando focar-se nas habilidades do seu personagem – por exemplo, o Ali Baba, em um de seus primeiros encontros, escolheu “Lutar” contra umas criaturas que encontrou – ele tinha Uso de Armas e Magia, então achou estar bem coberto, porém o encontro envolveu fazer uma armadilha, necessitando de Conhecimento de Lugares Selvagens para ser apropriadamente feita. Então, o Ali Baba falhou, apanhou e foi humilhado. Ou seja, mesmo fazendo escolhas conservadoras, seja pela ação em si, seja por ter habilidades que parecem relevantes, podem de nada servir, enquanto agir de modo quase aleatório, pode trazer resultados melhores! Somado a isso, o jogo exige que vários efeitos sejam decididos por outros (por exemplo, uma missão pode demandar que outro jogador escolha quais locais seu personagem deve visitar), e se o Tales of the Arabian Nights for encarado como uma competição feroz, pode valer “ferrar” o outro, posicionando tudo longe, distante um local de outro, e assim em diante. Mas o jogo só perde com isso – pois é divertido ver os resultados de completar as missões e outras tarefas, até porque tendem a ser os encontros mais complexos.

Nossa partida demorou cerca de 2hs e alguma coisa. Não sei exato, pois não estava prestando atenção nisso – um sinal positivo de que a partida me agradou, mas isso para mim, pois um dos jogadores, após alguns encontros ruins, acabou ficando para trás e não pegou tanto o gosto pelas histórias, ficando um tanto distraído na vez dos outros – como disse, o downtime é um problema para ficar atento.

O Tales of the Arabian Nights é um jogo que fica a parte dos outros: não é bem um jogo de competição, mas também não é cooperativo; é um jogo onde o que importa são as histórias, mas não é um jogo de contar histórias (não é preciso ter traquejo para inventar histórias e lidar com a criação de coisas num momento de pressão – como no Aye, Dark Overlord! ou no Once Upon a Time: The Storytelling Card Game, e nem tem-se o controle da história que tem-se no Gloom); é um jogo sem grandes exigências, pouco complexo, porém não é tão simples nem tão direto quanto um Dixit. Ou seja, é possível traçar diversos paralelos, contudo nenhum deles cobre a extensão toda do Tales of the Arabian Nights.

Portanto, o Tales of the Arabian Nights não é certamente um jogo para todos (longo, sem controle, com downtime, além do que a caixa é enorme e pesada como se estivesse cheia de pedras – principalmente por causa do grosso livro de encontros, mas também porque vem com uma grande pilha de cartas, e um tabuleiro grande e bem feito), e, mesmo assim, é um jogo único, diferenciado, capaz de criar histórias que serão lembradas por muito tempo.

E é isso!

Abs,

Crédito das imagens, em ordem:
UniversalHead
UniversalHead
EndersGame

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