Cthulhu Dice – resenha

Publicado: 25 de novembro de 2014 por Tiago Perretto em Resenha
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– Vai lá, desenha isso de uma vez.

O cultista, de joelhos na pedra, com o giz na mão, ao contrário do que poderia ser esperado, parou de desenhar e encarou seu colega de culto com o típico olhar de alguém que, ao chegar no cinema, ouve que o tempo na fila foi perdido porque a sessão está lotada e que, por sinal, a promoção não é válida para aquele dia em particular.

– Você acha que é fácil desenhar um pentagrama na pedra? Isso não é um quadro de escola. Isso é pedra. Sabe como é difícil manter uma linha reta na pedra?

– É… – O cultista de pé estava numa situação em que tinha duas opções: continuar a discussão e correr o risco de ter de ser ele a desenhar o pentagrama, ou terminar a discussão, ainda achando estar correto em reclamar da demora, com o benefício adicional de não ter nenhum trabalho extra para fazer. – Deve ser difícil – disse, decidindo-se.

– Não é fácil – concordou o outro, satisfeito de obter reconhecimento, o tipo de obtenção que vem de lugar nenhum, nem é dado, e sim criado e enviado por correio para si mesma, para que dê a ilusão aos demais tipos de reconhecimento que ele merece. – Trouxe o bode?

– Galinha.

Aquele que desenhava parou por um tempo avaliando a resposta. Seria um jogo? Algum tipo de teste psicológico para dizer a primeira coisa que viesse à cabeça? O tom foi defensivo, experimental, de quem vê-se obrigado a adivinhar a idade ou peso de uma mulher que lhe interessa, mas que tem beleza o suficiente para achar elogios falsos aborrecidos.

– Galinha?

– Galinha.

O que desenhava esticou o pescoço para olhar atrás do outro e, por certo, o saco de estopa parecia estar ciscando o solo rochoso, ou a própria estopa. Era difícil identificar. O que desenhava suspirou de forma audível e esfregou os olhos.

– Isso, por ventura, é algum maldito ritual de vodu?

– Tente você achar um bode preto na cidade. Ele pode ter mil filhos, mas nenhum deles por aqui.

O cultista que desenhava coçou a cabeça, tentando desviar a raiva para outra atividade.

– Nem ao menos um galo?

– Galinha.

– É preta ao menos?

– É sim. Não toda, mas é.

Outro suspiro. Mais pesado e lento que o outro. A frustração era mais densa que o ar.

– Vai ter que dar, então. Bem, passe-me a vela.

Não houve movimento. O cultista no chão largou o giz, bateu as mãos para limpá-las e, depois de colocá-las com cuidado em cima das coxas, olhou o outro. – A vela – insistiu.

– Então… – O cultista de pé hesitou esperando ser interrompido. Esperava ser interrompido, daria mais tempo para elaborar algo melhor, mas não o foi. Assim, teve de continuar. – … sabe que teve aquele blecaute um tempo atrás? Então, eu estava lendo quando a luz apagou. Eu estava perto do final! O Langdon estava quase descobrindo quem era o Professor. Então eu procurei por uma vela, mas na gaveta não tinha mais. Então eu…

– Pare. – O cultista inspirou, tentando puxar qualquer calma que houvesse no ambiente. Havia, pelo jeito, bem pouca. – Você quer me dizer que usou a Vela de R’lyeh, feita com a gordura do coração de mil pecadores? Aquela que queima até debaixo d’água e até mesmos no abismo mais escuro do universo? É essa a vela que você usou? Para terminar de ler um livro?!

– Não um livro qualquer, é O Có…

O cultista no chão levantou uma mão de modo peremptório.

– Você quer me deixar louco, é isso, né?

Era uma pergunta retórica. Mal sabia ele que ela não deveria ser. Pois acontece que a resposta era “sim”.

CTHULHU DICE – O JOGO

Imagem por ragados

Geral:
Cthulhu Dice é um jogo… bem, ele é um jogo no sentido que dois-ou-um é um jogo, ou que bater em porta-copos para pegá-los no ar é um jogo. Enfim, no… hã… jogo, cada um representa um cultista que quer derrubar os demais de forma a ser o principal servo de Cthulhu, de preferência antes que Cthulhu se irrite e devore a mente de todos os envolvidos.

Regras:
Você rola um dado e faz o que ele lhe indicar. É isso. Mas tem um extra: é em nome de Cthulhu! Vou descrever: você escolhe um alvo, então rola o dado de 12 faces (ou o Dodecaedro Cósmico, como prefiro chamá-lo) e o que pode sair é:

Tentáculo: você rouba 1 ponto de Sanidade do alvo;

Cthulhu: todos os cultistas perdem 1 ponto de Sanidade;

Símbolo Amarelo: o alvo perde 1 ponto de Sanidade para Cthulhu;

Símbolo Ancião: quem rolou o dado recebe 1 ponto de Sanidade de Cthulhu;

Olho: quem rolou escolhe qualquer um dos outros efeitos.

Após o ataque, aquele que foi o alvo, devolve o ataque da mesma forma – rola o dado e age de acordo.

Desse modo vai até que reste somente um cultista são. Ele é o vencedor! Se todos ficarem loucos, Cthulhu vence!

Profundidade:
Nenhuma. Rola o dado e vê no que dá. Há duas decisões a serem feitas durante o jogo: quem será o alvo e quando sai o Olho, que efeito aplicar. Só isso, nada mais. Coloque um macaco jogando e ele tem quase as mesmas chances que qualquer outro de ganhar. Talvez mais, mas pelo menos quase a mesma chance.

Imagem por Gripen

Tema:
Cthulhu é conhecido. O Steve Jackson sabe disso. E ele gosta de dinheiro. Nada mais.

Produção:
É boa. As regras estão impressas em papel de boa gramatura e tudo colorido. As pedrinhas que representam a sanidade são eficientes (gosto especialmente das verdes). O dado é razoavelmente grande e os símbolos são bem visíveis. Por US$ 6.95, é um preço justo.

Imagem por herebebooks

Diversão:
Eu me surpreendi. O Cthulhu Dice é divertido. Não sempre. Nem para todas as pessoas. Mas serve como um excelente “quebra-gelo” em eventos, pois o número de participantes só é limitado pelo número de pedras para representar a sanidade – e isso pode ser substituído por qualquer tipo de marcador. Então sem grandes dificuldades o jogo pode acomodar mais do que o limite dos 6 participantes.

Ele dá a impressão de ser um jogo ao invés de somente um modo aleatório de determinar um vencedor. Por isso é mais divertido do que par-ou-ímpar em formato de mata-mata, que daria basicamente o mesmo resultado com o mesmo número de decisões (Par… ou ímpar? Tantas escolhas).

Vale a compra?
Ah. Essa é difícil. Vou evitar o sim ou não. Vocês que escolham.

Para as pessoas certas, ele serve e vale a compra. Afinal, o custo é relativamente baixo, e você ganha algo que pode jogar com pessoas com qualquer nível de experiência em jogos e até mesmo das mais diferentes idades. Também serve como uma brincadeira para escolher o jogador iniciar de um outro jogo. Porém o Cthulhu Dice tem uma utilidade tão particular, que para muitos vale a compra. É barato, mas para a maioria será jogar dinheiro fora com algo que ficará no armário pegando pó. Entretanto, nunca a compra lhe dará um grande arrependimento, devido ao preço.

Bem, é isso!

Abs,

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